Rui Ferreira. Histórias que nunca te contaram da Semana Santa de Braga. Braga: Ponto Braguez, 2025.

O texto que se segue constitui uma apresentação crítica da obra Histórias que nunca te contaram da Semana Santa de Braga, da autoria de Rui Ferreira. Trata-se de um livro singular, no qual se cruzam narrativa histórica, tradição cultural e reflexão antropológica, revelando ao leitor episódios insólitos, esquecidos ou simplesmente desconhecidos em torno da Semana Santa bracarense. A análise destaca a sensibilidade literária do autor, capaz de conjugar rigor histórico com uma escrita sugestiva e apelativa, proporcionando uma leitura agradável, enriquecedora e frequentemente surpreendente. Sublinha-se ainda a relevância deste trabalho para a compreensão profunda da identidade cultural e espiritual de Braga, apresentada como um processo dinâmico e em permanente reinvenção.
I. Resenha do seu conteúdo
Este livro é uma obra de carácter histórico-cultural que recolhe, interpreta e divulga episódios, tradições, curiosidades e transformações das práticas religiosas — e outras — em torno da Semana Santa na cidade de Braga. Longe de ser uma narrativa linear ou um estudo sistemático, trata-se antes de uma antologia de textos breves, organizados tematicamente, que revelam aspetos menos conhecidos — por vezes insólitos, por vezes esquecidos — do imaginário coletivo bracarense.
Embora nada substitua a sua leitura, em jeito de convite refiro que a estrutura do livro se distribui por seis grandes núcleos temáticos:
1. Histórias urbanas – Onde se explora o enraizamento espacial das procissões e rituais religiosos na malha urbana de Braga, com destaque para a origem da Procissão dos Passos, a Via Sacra entre o Pópulo e a Senhora-a-Branca, ou as transformações no percurso dos altares e procissões.
2. Histórias grotescas – Focadas em episódios inusitados ou marginais, como a atuação dos disciplinantes, os fogaréus (farricocos) e a jumentinha que salvou uma procissão da extinção — símbolos de um imaginário popular ora dramático, ora burlesco.
3. Histórias improváveis – Pequenos relatos que surpreendem pela inversão das expectativas: uma procissão noturna que ocorria à tarde, o bater à porta da Sé antes de entrar ou os rebuçados do Senhor.
4. Histórias desconhecidas – Episódios ou personagens históricas que moldaram silenciosamente a evolução da Semana Santa em Braga, como a criação das primeiras comissões organizadoras ou as alterações litúrgicas promovidas por membros do clero.
5. Histórias devotas – Dedicadas às expressões da religiosidade popular, com destaque para as procissões promovidas por confrarias menos conhecidas e os elementos simbólicos que as distinguem.
6. Histórias surpreendentes – Onde o autor relata acontecimentos que escapam ao senso comum: intervenções de figuras políticas na preservação das tradições, contribuições literárias de autores como Camilo Castelo Branco ou José Saramago, e até o léxico peculiar da linguagem pascal bracarense.
A obra pode ser percorrida com deleite de capa a capa, ou então saboreada por incursões pontuais, transitando o leitor entre capítulos ao sabor das suas curiosidades e interesses mais imediatos. Certamente notará, com subtil prazer, que os títulos muitas vezes encerram uma delicada e arguta ironia.
A obra, sustentada em investigação documental, arquivos e tradição oral, conjuga o rigor da micro-história com o encanto da crónica cultural. Ao reunir estas “histórias que nunca te contaram”, Rui Ferreira não só resgata um património imaterial riquíssimo, como também contribui para a sua valorização contemporânea, revelando as dinâmicas de transformação, invenção e reinvenção das práticas religiosas ao longo dos séculos. É um contributo relevante para a memória coletiva de Braga e para a compreensão da sua identidade cultural e espiritual.
II. Características da escrita
Rui Ferreira revela, nesta obra, uma apurada sensibilidade literária, que se traduz numa escrita cuidada, sugestiva e, por vezes, subtilmente poética. A sua prosa é clara e fluente, pautada por um ritmo narrativo que oscila com elegância entre a descrição minuciosa e a evocação quase nostálgica dos episódios relatados.
Com domínio do registo ensaístico, mas sem ceder à aridez académica, o autor consegue infundir calor humano e densidade simbólica aos factos que expõe. A escolha lexical parece ser muito precisa, com termos que denotam conhecimento do campo religioso e cultural, e a estruturação dos textos — curtos, tematicamente coesos, com títulos sugestivos — facilita a leitura sem sacrificar a profundidade.
Rui Ferreira escreve com um equilíbrio raro entre o historiador e o contador de histórias, oferecendo ao leitor não apenas informação, mas também encantamento. A sua escrita é, pois, expressão de um saber habitado: erudito, sim, mas enraizado na experiência vivida e na escuta atenta da memória coletiva.
III. Apreciação da obra
Existem histórias que são caminhos secretos, percorrendo, silenciosamente, a memória coletiva de um povo. Tais histórias, frequentemente sussurradas entre gerações, são fundamentais, pois moldam e perpetuam a identidade cultural e religiosa de uma comunidade.
Este livro constitui-se precisamente como uma jornada reveladora por esses trilhos ocultos, trazendo à luz acontecimentos, curiosidades e práticas vinculadas a um dos mais valiosos patrimónios culturais e religiosos de Portugal: a Semana Santa de Braga.
Rui Ferreira esclarece-nos, com minúcia histórica e rigor académico, como aquilo que aparentemente julgamos eterno e imutável resulta, na verdade, de um permanente processo de construção e reinvenção cultural, sujeito às transformações sociais e religiosas. Como bem refere o historiador britânico David Lowenthal, citado na própria obra, «o passado é um país estranho». Este princípio é demonstrado pelo autor ao longo de toda a obra, revelando-nos que as tradições que consideramos ancestrais são, frequentemente, recentes ou até mesmo inventadas. Como sublinha Eric Hobsbawm, outro ilustre estudioso das tradições, «inventar tradições é essencialmente um processo de formalização e ritualização, caracterizado pela referência ao passado, mesmo que seja para impor a tradição».
Ao longo das páginas deste livro, o leitor descobrirá, com surpresa, eventos singulares e reveladores da complexidade e riqueza cultural de Braga. É-nos revelado, por exemplo, que «a procissão dos Passos poderia ser o mais ancestral cerimonial integrado nas Solenidades da Semana Santa bracarense». Encontramos descrições vívidas e surpreendentes, como a dos farricocos, outrora vistos com suspeição e hoje símbolos inconfundíveis desta celebração:
«Vestidos de negro, descalços e de rosto tapado, os farricocos são o ícone mais revelado pelo imaginário associado a esta manifestação da comunidade bracarense», como nos refere o autor.
É igualmente notável a reflexão do autor sobre a dimensão do grotesco, citando Victor Hugo para recordar que «o grotesco é sempre parte integrante do sagrado e do profundo». Exemplos disto são a ronda dos fogaréus ou o episódio emblemático da “burrinha” da procissão de Nossa Senhora das Angústias, que evidencia como um elemento aparentemente estranho ao ritual pode tornar-se essencial para a perpetuação da memória coletiva.
Rui Ferreira, num exercício de rigor histórico, não se limita a registar eventos. Antes, explora a dinâmica complexa de como uma comunidade cria vínculos emocionais com práticas religiosas e culturais, atribuindo-lhes, frequentemente, uma falsa ideia de imutabilidade. Com efeito, ao ler-se esta obra compreende-se que a identidade de Braga não é apenas aquilo que se recorda, mas também aquilo que se opta por esquecer, um exercício profundamente humano de seleção e valorização cultural.
As histórias narradas por Rui Ferreira são, portanto, muito mais do que simples curiosidades: elas são pilares de uma identidade comunitária que transcende o tempo. A cidade de Braga, reconhecida como um epicentro religioso e cultural, reafirma-se, nestas narrativas, como um espaço de encontro entre o sagrado e o profano, o erudito e o popular. Segundo o antropólogo Benedict Anderson, citado também pelo autor, são precisamente estas “comunidades imaginadas” que conferem aos indivíduos uma identidade comum, sentindo-se ligados por elementos como a língua, a cultura e a história.
Assim, este livro torna-se indispensável para quem deseja compreender a fundo não apenas as tradições da Semana Santa, mas sobretudo a maneira como Braga construiu e continua a afirmar a sua identidade perante Portugal e o mundo. São histórias, afinal, que definem “quem somos” e nos recordam que a identidade cultural de uma cidade não é algo estático, mas sim um processo vivo, fluido e constantemente renovado.
IV. Para concluir
A leitura desta obra proporcionará a todos, certamente, uma viagem singular ao coração da identidade bracarense. Termino com um convite renovado e sincero: mergulhem nestas páginas com a mesma curiosidade e fascínio com que Rui Ferreira as escreveu, deixando-se maravilhar pela descoberta de uma cidade que, nas suas práticas culturais e religiosas, nunca deixa de surpreender.
Boas Leituras.
Luís M. Figueiredo Rodrigues